| O Ensino de Empreendedorismo nas Universidades Brasileiras |
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| 23-Nov-2008 | |
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Para se ensinar empreendedorismo no Brasil, significa uma
quebra de paradigmas na nossa tradição didática, uma vez que aborda o saber
como conseqüência dos atributos do ser. Assim, na sala de aula, elementos como
atitude, comportamento, emoção, sonho, individualidade, ganham vaga antes
ocupada somente pelo saber.
No ensino do empreendedorismo são abordados conceitos que
regem a realidade nas relações de trabalho: a emoção, a convivência com a
ambigüidade e incerteza, a aplicação contextual dos conhecimentos, o
desenvolvimento do processo visionário. Trabalha também com fatores culturais,
determinantes do grau de empreendedorismo de uma determinada região e de uma
comunidade. Prioriza o comportamento (o ser) em relação ao saber. Desta forma,
o objetivo final da disciplina não é instrumental. A proposta não é a
transmissão de conhecimentos, mas o esforço no desenvolvimento de
características pessoais necessárias ao empreendedor de sucesso.
Não se visa a criação de empresas de sucesso, mas sim a
formação de empreendedores de sucesso. Para estes últimos, o eventual fracasso
da empresa é visto antes como um resultado, com o qual saberão aprender. A
atividade de empreender, representada principalmente pela identificação e
aproveitamento constante das oportunidades. O empreendedorismo consegue propor
conceitos que permitem a identificação de condições de sucesso na criação e
gestão de negócios.
Assim, o ensino nessa área utiliza-se da análise de algumas
características comportamentais básicas encontradas no empreendedor de sucesso.
A ênfase na construção de um perfil de empreendedor e não somente na aquisição
de um estoque de conhecimentos.
Questões fundamentais, surgiram como desafio a uma proposta
metodológica que pudesse equacioná-las. A primeira questão diz respeito a
indagações sobre como e em que condições pode se verificar o ensino nesta área.
O que ensinar? É possível ensinar alguém a tornar-se empreendedor? Como
fazê-lo? O empreendedor nasce pronto, é resultado de genes favoráveis? São
indagações similares àquelas feitas em relação ao gerente, há 50 anos.
Uma conclusão que decorre de pesquisas afirma que é possível
aprender-se a ser empreendedor, mas certamente sob condições diferentes
daquelas propostas pelo ensino tradicional. A segunda questão emerge da
discussão precedente e pode ser enunciada da seguinte forma: a universidade
está capacitada a ensinar o empreendedorismo, considerando-se os seus métodos
tradicionais de ensino, o estágio não estruturado do ramo do conhecimento, e
ainda, levando em conta que o empreendimento na área de negócios não é prática
das nossas universidades ?
A terceira questão central refere-se ao perfil do professor
desta disciplina. Qual o seu papel num programa didático em que o comportamento
é o alvo maior, e em que o conhecimento não é transmitido pelo mestre, mas
gerado pelos próprios alunos, no processo de elaboração da sua visão de
empresa, na auto-avaliação do seu comportamento, na construção de seus métodos
próprios de aprendizado, na forma pró-ativa de agir? Qual o papel do professor
tradicional no seu ministério de ensinar empreendedorismo, área em que as
relações com o ambiente natural do empreendedor constituem a fonte essencial de
conhecimento e aprendizado?
Nesta área, a conexão do aluno com o mundo exterior à
universidade precisa ser intensa e sem intermediários. O verdadeiro ambiente
"acadêmico" do aluno-empreendedor é o mercado, onde se articulam
forças produtivas, econômicas, sociais, políticas. Nesse contexto, o estoque de
conhecimentos do qual o empreendedor necessita é altamente mutante e
contingencial. O saber confunde-se com a capacidade de percepção do
comportamento do mercado concorrencial, composto por conjuntos de pessoas cujas
ações provocam a sua transformação constante que, por sua vez, é geradora do
alvo que o empreendedor incansavelmente persegue: a oportunidade. Como entender
e abordar esta inversão no campo acadêmico? Como vencer o paradoxo do ensino
pela universidade de um conhecimento que ela ainda não domina?
Alguns pesquisadores acham que é possível aprender-se a ser
empreendedor. Outros acham que é possível ensinar. A metodologia proposta para
a disciplina aborda o problema de forma pragmática. Enquanto tais questões são
discutidas no meio acadêmico, há, em todo o mundo, uma febre de criação de
empresas e de ensino de empreendedorismo. Se a universidade, por seus objetivos
e missão, não empreende na área de negócios, esta disciplina responde
convidando empresários a assumirem o papel de mestres, lado a lado com o
professor.
Se os elementos essenciais ao empreendedor são a sua
capacidade de criar, definir a partir do indefinido, de aprender constantemente
a partir da ação, enfatizam-se no curso características comportamentais de
criatividade, do pensamento difuso, da parceria definitiva dos dois lados do
cérebro, do conhecimento autônomo, pró-ativo, do aprender a aprender. Se o
importante neste campo é antes ser do que saber, invertem-se os papéis entre
professores e alunos, como inverte-se o fluxo do saber. Os alunos são os
agentes de geração de um conhecimento individualizado, da adoção de
comportamentos adequados à realização da sua visão.
Os pressupostos da formação do empreendedor baseiam-se mais
em fatores motivacionais e habilidades comportamentais do que em um conteúdo
puramente instrumental. Esta característica irá provocar, como se verá mais
tarde, mudanças radicais na abordagem educacional, tanto em termos de
orientação profissional, uma vez que as nossas universidades estão mais
voltadas para a formação do empregado de grandes empresas, como no que diz
respeito à própria metodologia de ensino, já que no campo de criação de
empresas o objetivo não é a transferência de conhecimentos, mas a geração de
conhecimentos pelo ator do processo, o aluno.
Portanto, os papéis do professor e do aluno são
transformados: aquele é somente um agente indutor do processo de
auto-aprendizado pelo aluno, cuja tarefa é o desenvolvimento de habilidades
comportamentais inspiradas na própria formação existencial e psicológica. O
saber específico, instrumental, é conseqüência da forma de ser, da atitude
diante dos objetivos de se criar um negócio. A empresa é uma projeção e
extensão do próprio ego. No que diz respeito ao ensino de empreendedorismo a
questão é resolvida, mais uma vez, de forma pragmática. Experiências de sucesso, em todos os níveis de ensino, têm
sido realizadas em todo o mundo. Sabe-se que fatores fundamentais para o
desenvolvimento do espírito empreendedor apoiam-se, entre outros, em elementos
tais como a motivação à auto-realização, iniciativa e persistência, energia,
liderança, capacidade de desenvolver uma visão, suportada por uma rede de
relações pessoais.
Sandra Regina da Luz Inácio
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